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Gauchada boa de letra

Martha Medeiros

“Mas o que está acontecendo, agora todo mundo escreve? Tem mais escritor que leitor!!” Ouvi esse resmungo dia desses e tive que rir, porque, afora o exagero, é isso mesmo. Quando menos se espera, alguém que nunca havia escrito uma linha está fazendo sessão de autógrafos.

Nada de espantoso nisso. O espantoso é que grande parte do que se publica é, no mínimo, bom. Dizem que o nosso Estado é um celeiro de escritores, e essa imagem, ainda que piegas, corresponde à verdade: se escreve muito por aqui, e cada vez melhor. Não que surja um Proust a cada Feira do Livro, mas quem se arrisca não costuma passar vergonha nem entediar ninguém. Por isso eu, que costumo fazer sugestões de leitura nesta época do ano, desta vez vou deixar de lado os gringos. Farei uma lista só dos conterrâneos que me entreteram este ano.

Antes de dizer o que li e gostei, vou começar pelo que reli: algum Mario Quintana e muito Caio Fernando Abreu, dois gaúchos que tiveram suas obras reeditadas em 2006. Se você desembarcou na Terra hoje e nunca leu nada deles, esqueça os nomes que vêm adiante, primeiro tire esse atraso.

Bem, agora vamos em frente: comecemos pela dica de duas obras já bastante comentadas, mas que nunca é demais reprisar: os contos da Monique Revillion em Teresa, que Esperava as Uvas, e o empolgante Mãos de Cavalo, romance de Daniel Galera.

Antonio Costa Neto lançou Mãe na Zona, um livro semibiográfico escrito num ritmo de tirar o fôlego. Quem diabos é este Antonio? Ele virou um senhor de respeito e mora nos Estados Unidos, mas escreve como se ainda fosse o Toninho Neto, figura que barbarizou o teatro porto-alegrense nos anos 80. Alguém lembra do Cem Modos? O texto era dele.

Tivemos este ano os poemas maduros de Ana Mariano com Olhos de Cadela, os poemas em prosa do Fabricio Carpinejar em O Amor Esquece de Começar, e o recém-lançado pocket da Paula Taitelbaum, com seus deliciosos poemas eróticos. Sem falar que o Thedy Correa, com seu Bruto, provou que letra de música e poesia podem se parentes próximos. Já Carol Teixeira confirmou de vez seu talento nas crônicas e contos com Verdades & Mentiras. Como diz o Juremir (outro gaúcho dos bons) “tem escritora na praça”.

Dos colunistas aqui de ZH, destaco com entusiasmo o livro de José Pedro Goulart, Minhas Certezas Erradas, e claro que vou atrás do Kledir e seu O Pai Invisível. Da Leticia Wierzchovski, pretendo adquirir o infantil Todas as Coisas Querem ser Outras Coisas, cujo título, de cara, me fisgou. E Cintia Moscovich? Está com novidade na Feira: é proibido não ler.

Seria chover no molhado recomendar Veríssimo, Scliar, Assis Brasil, Lya Luft, Sergio Faraco, Tabajara Ruas, Carlos Urbim, Fischer, Eduardo Bueno, todos de primeiríssimo time, mas recomendo igual, ora. E tem autores que não estão destacados aqui – inúmeros, como Paulo Scott, Ricardo Silvestrin, Leonardo Felipe, Paulo Bentancur – porque não consegui acompanhar tudo o que escreveram (e serei azucrinada pela ausência de tantos outros que simplesmente esqueci, azar o meu, quem mandou?). Enfim, a sugestão mais importante: danem-se aqueles que nos chamam de bairristas ou coisa pior, leia os gaúchos e regale-se com a nossa literatura universal.


Domingo, 5 de novembro de 2006.



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